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quinta-feira, 24 de março de 2011

O curioso caso de Cruzeta

Na cidadela, a gentileza é uma constante. O sossego sofre abalos poucas vezes por mês, quando se celebra um casamento, um nascimento, ou um velório. Na época em que a presente história se passa, não há sequer uma agencia bancária na cidade, e o seu maior orgulho é a sua jovem Filarmônica.

Dona Marta caminha tranqüila pelas ruas, cumprimenta quem encontra. Muito mais que conhecer a todos que acha em seu caminho, ajudou a maior parte dos populares a nascer. Além de parteira, através dos relatos orais, lembranças do passado de quilombolas e indígenas, é a mestra nas atividades de cura, manipula plantas medicinais e dá lições de sobrevivência.

Para azia, febre e diarréia recomenda a Aroeira. Em caso de gastrite, um chá de espinheira santa. Para os doentes com tosse, gripe e catarro no peito, nada como um lambedor de angico, tradicional xarope do sertão. Se uma de suas pacientes tem sintomas de anemia, um bom chá de cordão de São Francisco resolve o problema, mas não se deve abusar do quinhão, a real diferença entre o remédio e o veneno é a dose, o excesso pode causar hemorragias. Tem remédios para todos os males, dos mais graves até uma dor de dente ou um simples soluço.

Seu Matias é uma figura emblemática. Apesar de sua idade avançada - já perdeu as contas de quantas secas venceu, sua maior certeza é que nunca deixará de trabalhar. O seu exemplo faz notar com orgulho o sentido da frase: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Sabe todos os segredos da caatinga, alimenta o gado com palma, maniçoba, jureminha, lã de seda e feijão bravo. Em épocas difíceis matou a fome de muitos conterrâneos, sabe usar a fartura da caatinga, espelhada em umbuzeiros, licurizeiros, quixabeiras e muricis.

Em Cruzeta os dias são mansos e sem distrações. O sonho de todo pai era ter um filho médico ou padre. O centro da sociedade está na Igreja e na pracinha da cidade. Com efeito, toda a paz está para ser terminada por um forasteiro, um homem da capital. Numa cidade em que a criminalidade nunca existiu, a função de delegado se resumiria ao trivial...

O tempo é implacável, e hoje, mesmo os moradores de Cruzeta já sentem a doença do esquecimento, descrita por Gabriel Garcia Marquez em sua obra “Cem anos de solidão”. Poucos lembram os fatos desta curiosa história, transcorridos pouco mais de vinte anos.

Em seu desfecho, o final não foi infeliz como leva a crer a reportagem acima. Os personagens Matias e Marta não foram nem processados e nem presos pelo uso medicinal da maconha, que conheciam pela denominação de origem africana “liamba”.

Hoje em dia, a cidade mostra que seu futuro é promissor, com a descoberta de minas com mais de 200 milhões de toneladas de minério de ferro. Um povo com gosto pela arte, que tem o orgulho de ver uma filha da terra nas atividades culturais das Olimpíadas de Londres, uma bailarina de sucesso que em sua trajetória pode restabelecer a fé de qualquer descrente na humanidade. A sua filarmônica continua um sucesso, espalhando a digna alegria de um povo que sente como sua obrigação receber bem. E o faz com maestria.

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