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terça-feira, 10 de maio de 2011

Sobre meninos capitalistas e tribais



Pode-se fazer humor com qualquer coisa, mas todo humorista deve ser consciente que toda piada traz uma mensagem. Existem piadas em que uma parte oprimida e com trejeitos pode apresentar uma mensagem positiva. E ocorrem seres que dizem ser piada a exploração da miséria e opressão humanas, homenageiam opressores.
Mas o humor também é uma expressão de sentimentos, pode em sua arca carregar amor, caridade, inocência, luxúria, cobiça, inveja ou mesmo ódio. Uma piada pode rogar por discriminação, pelo assassinato. Meu avô Celso dizia que existem limites para o amor, para a caridade, para o desapego. Mas não para a idiotia e ignorância, nem para a maldade.
Pensemos em um tempo como outro qualquer: a amostra grátis do inferno. No semáforo ou no congestionamento, o calor do asfalto cáustico e a fumaça negra e pesada dos ônibus emolduram um miúdo, com uma garrafa PET, água suja e um velho rodo. Vagando em frenesi, garimpa um motorista boa praça que compartilhe trocados para ter o vidro do auto um pouco menos sujo.
Pelé, Buiú, qualquer que seja o apelido pelo qual o moleque responde, ele não deve temer as caras fechadas, já perdeu o pudor tal e qual os transeuntes e motoristas que o olham com nojo, medo ou pena. Suas maiores preocupações apontam para outros moleques, que andam em bando, e em dar a grana do guardador de carros que lhe aluga a permissão para trabalhar no sinal. Está em sua casa, à vontade como um gato de rua, um pinto no lixo. É o sistema.
E como será o amanhã desta criança? Qual será a vida dele no futuro? Se o exemplo acima de uma criança de rua pode parecer singular, existem muitas crianças de rua, e mais ainda, existem milhares de crianças em diversas miseráveis condições, sujeitas a sofrer um mundo capitalista. Um mundo que explora a todo transe e indústria, e que todos os dias põe sonhos de consumo em obsolescência programada em telas, lavanderias de mentes.
Um dos destinos de crianças que vivem à margem, o Ceduc é um órgão do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, tem como função dar educação e orientar jovens seres humanos que tem uma conduta incompatível com o que se chama de “leis”. Tem em seus fundamentos uma proposição educativa e pedagógica de reabilitar o ser humano, nunca de puni-lo. Apesar do Governo gastar em cada adolescente cinco mil Reais por mês, nenhum de seus objetivos são atendidos.
O uso de drogas é uma constante dentro das instalações do Ceduc, e o Município de Natal, responsável por oferecer tratamento de saúde aos dependentes químicos não dá qualquer assistência. Nosso Estado sempre a criminalizar e oprimir achando o nonsense que se proibindo o problema se resolve. Os poucos funcionários lidam com situações como esta aqui.
É na realidade um panorama idêntico ao visualizado em qualquer presídio brasileiro, uma cena deprimente, com colchões em pedaços, os banheiros sem higiene, e entre as pichações nas paredes pode ser lida a frase: “No mundo em que vivemos, somos apunhalados pela lâmina invisível da falsidade”. São como os manicômios.
Num cenário desolador como este, 80% dos ex-internos voltam a cometer delitos após receberam alta das medidas educativas. O percentual não é maior pois existem muitos educadores que dão o sangue e o suor. Educadores que choram lágrimas pelo descaso e falta de humanidade da sociedade.
A professora Teresa de Lisieux, por exemplo, é uma dos profissionais abnegados que tentam contra o sistema recuperar os menores, todos pobres e a maioria vindo de lares estilhaçados. A professora apresentou a tese de doutorado em Ciências Sociais na UFRN “Entre o pavilhão e o inferno: A trajetória dos meninos infratores do Ceduc/Pitimbu”, e busca lançar o seu segundo livro a respeito desta situação, revoltante, porém invisível para a maioria das pessoas.
A situação das mulheres em face ao plano narrado acima é desoladora, tendo no sistema prisional uma grande massa de condenadas por pequenos crimes, de mulheres que cumprem pena por ligação criminosa com seus companheiros e maridos, proibidas simplesmente de qualquer direito, até da maternidade. Imperdível buscar assistir o documentário Bagatela.
O mais terrível é pensar que talvez nada vai mudar. Os seres indesejáveis são jogados nas cadeias como quem se esquece dos sanatórios. E existem muitos desumanos que desejam o extermínio, a pena capital, que fazem piada. É desejo trazer a baila o seguinte programa humorístico e tecer alguns comentários ao fim:

Em primeiro lugar temos um programa humorístico com plano de fundo policial, com uma edição que prima pelo pastelão seja pela música de fundo, por sonoplastia de tiros quando a criança fala que é “artigo 33 até a morte”, pelas gozações do repórter em atos falhos como brincar com o moleque sobre seu madruga e o chaves. Enfim, ali estava um menino tribal e capitalista, nas próprias palavras do moleque. E ainda foi ao ar junto ao Pelé uma menina de quinze anos – mesmo sem mostrar seu rosto é algo censurável.
Pelé não sente vergonha das câmeras, na verdade ele tem uma alegria típica de festa de debutantes ou baile de formatura. Faz sentir tristeza saber que o jogo só está começando para Pelé, que sua ocupação agora muito provável será conquistar o respeito no mundo do crime, caminho que ele mostra conhecer bem.
Em arremate é mais lamentável ainda existir um programa de televisão como este. E existe muito mais, existe muito público. Existem muitos Rafinhas, nossa sociedade é capitalista e tribal, também. A vitória só será possível em unidade contra o inimigo comum, a miséria. Enquanto isso sempre existirá lampiões.

6 comentários:

  1. que orgulho!!!! que cabeça boa!!!!

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  2. Tiago, seus posts provocam uma miscelânea de satisfação arrebatadora com uma tristeza profunda. esse me doeu mais por que cita Recife..e eu sei que lá, esse programa é líder de audiência..

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  3. Eu vivo com saudades de Recife, e de Olinda, e de Jaboatão, de CALHETAS...

    Eu amo a complexidade de Recife, as mil possibilidades, como o seu povo é capaz de produzir de tudo, do ótimo ao pior.

    Infelizmente o Cardinot é de lá, e em todo local temos público... Eu estava rindo agora a pouco pois meu tio me lembrou que se amassarmos uma Folha de Pernambuco, escorre sangue...

    Muito obrigado pelo comentário, Elis!

    Saudações Fraternas!

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  4. A sociedade civilizada vê a pessoa em situação de rua como um problema em si mesmo. E aí exige mais policiamento, punição, efetividade do estado. Quando muito, caridade. Quando isso é um sintoma de nós mesmos. A violência com que eles comunicam essa miséria só pode escandalizar. Mas é a estética do oprimido, --- quando decide não se ver mais como oprimido, ou seja, pelos olhos do opressor. Como articular o discurso dos invisíveis e micróbios na esquerda, não vi ninguém fazer. Muito bom, Tiago!

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  5. Muito obrigado pelo comentário, Bruno. Ainda há os que sonham que a justiça social venha antes da caridade. Temos que tentar sonhar este sonho sempre, até quando acordados...

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