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quinta-feira, 29 de março de 2012

De pé no chão também se aprende a ler #DesarquivandoBR




Morreu exilado, sozinho, sem canto e sem voz. Abdicou de seu maior dom, pela distância de seu amor. Longe de seu povo, não quis aprender a falar a língua estrangeira sequer para comprar uma caixa de fósforos. Um dos maiores jornalistas brasileiros, fundador de diversos jornais e periódicos, escritor, um entusiasta da transmissão da notícia, do conhecer e saber.

Cabo do exército em sua juventude ousou levantar armas em 1935, sofreu a amargura dos campos de concentração e da polícia política de Getúlio Vargas e Felinto Müller. Foi um personagem da ação comunista que tomou o poder no Rio Grande do Norte. Posteriormente foi expulso do Partido, por denunciar a probidade de alguns dirigentes e discordar com a práxis.

Em sua crença, a materialização do marxismo seria possível quando as massas entendessem o significado da dialética. Explosivo e amável, autoproclamado socialista e leninista, foi o primeiro prefeito eleito pelo povo de Natal, nos braços do povo, com mais de 66% dos votos.

Até a presente data nenhum prefeito realizou obra parecida com a de Djalma Maranhão, reconhecida na época como exemplo pela UNESCO, e nenhum prefeito (talvez em todo o Brasil) foi tão perigoso para quem esmaga o povo, para quem vive da indústria da seca, da miséria, da exploração.

O maior de seus feitos foi concretizar o pensamento de Paulo Freire. Onde havia analfabetos, uma frente ampla, municiada com a pedagogia do oprimido. Em cada rua de cada bairro, vila ou favela, uma competição foi iniciada: a erradicação do analfabetismo. Faixas davam conta de quantos analfabetos ainda restavam em cada viela, bibliotecas populares errantes, móveis, matavam a sede. Todas as crianças tinham escola, refeição, recreio. Os adultos recebiam uma educação de acordo com o cotidiano, com instrumentos do dia a dia sendo utilizados como exemplo, com a compreensão protagonista em desfavor da memorização.

No dia 1º de abril de 1964, transformou o edifício sede do governo em quartel general da legalidade e da resistência. Isolado pelo governo do RN e do Brasil, foi traído, preso e levado para presídios de Natal, Recife e Fernando de Noronha. Com a brutal tortura sofrida e vinte e cinco quilos perdidos, a notícia de sua morte criou um clima de revolta popular na cidade de Natal, razão que forçou a justiça a lhe conceder um habeas corpus.

Sem direitos políticos, demitido do emprego, sem saúde, ainda perseguido e ameaçado de morte, exilou-se no Uruguai. A ditadura pode não ter matado diretamente Djalma Maranhão, mas ele morreu de tristeza. Morreu de saudade, morreu de incontido amor por sua gente, uma gente que vive com o pé no chão, uma gente que ainda hoje convive com o espectro do analfabetismo, da ditadura.

"Pude sentir, no exílio, como é difícil para um brasileiro viver fora do Brasil. Nosso país tem tanta seiva de singularidade que torna extremamente difícil aceitar e desfrutar do convívio com outros povos. O prefeito de Natal morreu em Montevidéu de pura tristeza. Nunca quis aprender espanhol, nem o suficiente para comprar uma caixa de fósforo", Darcy Ribeiro, sobre Djalma Maranhão.

"foi sepultado em Natal no Cemitério do Alecrim, graças à interferência do senador Dinarte Mariz, acompanhado de grande multidão no maior enterro já realizado em nossa capital que atestou o quanto ele era amado e querido por sua gente" Leonardo Arruda Câmara




Chamado feito para a quinta blogagem coletiva #DesarquivandoBR por Niara de Oliveira

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