diHITT - Notícias Cheque Sustado: Sobre Globalização, Lulismo e o Petismo.

Postagens populares

domingo, 16 de dezembro de 2012

Sobre Globalização, Lulismo e o Petismo.



Sobre Globalização, Lulismo e o Petismo.


Vive-se uma era de transição ímpar na fábula recente. Tanto no Brasil quanto mundo afora a luta entre 99% e 1% faz a teoria do fim da história de Francis Fukuyama se desmoralizar. Com o olhar na visita de Lula e de Dilma à França, o lançamento de um novo pacto desenvolvimentista e progressista, e na campanha contra Lula e o PT na grande mídia, o blog procurou questionar a notáveis, militantes e a intelectuais sobre a conjuntura e correlação de forças com foco no Brasil, sobre o Lulismo e o Petismo, em face a globalização: Valter Pomar, Ivan Alex Teixeira Lima, Giuseppe Cocco, Pedro Estevam Serrano e Hugo Albuquerque abrilhantam um debate que pode e deve ter a sua participação. Seguem as questões e as respostas.

também publicado no Blog da Dilma

Valter Pomar (*) Dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores e secretário executivo do Foro de São Paulo.
a) Como o Senhor vê a contraposição entre Consenso de Washington e o Pacto da Nova Governança Global e Desenvolvimento lançado por Lula, em seu discurso na França?
R: O Consenso de Washington está ideologicamente desmoralizado. Mas continua econômica e politicamente poderoso. As políticas de austeridade, de orientação neoliberal, continuam sendo hegemônicas na Europa, EUA e Japão. Tudo que atua no sentido de superar estas políticas é positivo. Mas, evidente, nem tudo que se propõe a superar o neoliberalismo, terá êxito, nem o fará em benefício dos trabalhadores. Uma parte da esquerda europeia e brasileira, por exemplo, ataca o neoliberalismo, mas continua prisioneira de conceitos e práticas herdeiras do Consenso de Washington.

b) O Senhor poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: A imprensa brasileira é, majoritariamente, propriedade e porta-voz das classes dominantes. E a posição hegemônica das classes dominantes brasileiras, acerca do PT e de Lula, é "na falta de alternativa, suportar; aceitar jamais, e fazer tudo para que seja passageiro e não volte mais". Fora do país a visão é mais matizada. Mas não nos iludamos: Lula é elogiado como estadista quando interessa, mas quando não interessa o atacam como ocorreu no caso das negociações entre Irã, Turquia e Brasil.

c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
R: O nosso governo deve trabalhar para que o Brasil lidere um bloco de países latino-americanos e caribenhos. Devemos trabalhar, também, para que a integração regional seja combinada com uma mudança profunda na ordem econômico social de nossos países. E se preparar para enfrentamentos cada vez mais duros com os que se pretendem donos do mundo.

d) Como o senhor observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: Acho bom que o Lula viaje o país. Mas, pensando estrategicamente, o mais importante é que o PT e as demais organizações da classe trabalhadora se fortaleçam. Precisamos de mais petismo, mais CUTismo, mais organização e consciência de classe. O lulismo é importante do ponto de vista tático, mas o petismo é decisivo estrategicamente.

Ivan Alex Teixeira Lima (*) Dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores e Secretário de comunicação do PT na Bahia
a) Como o Senhor vê a contraposição entre Consenso de Washington e o Pacto da Nova Governança Global e Desenvolvimento lançado por Lula, em seu discurso na França?
R: O Consenso de Washington fracassou em absoluto. A crise econômica que eclodiu em 2008 que tem produzido milhões de desempregados em todo mundo e especialmente na Europa em particular é a prova mais cabal de seu fracasso. Um pacto por uma nova governança global e desenvolvimento é uma ideia inovadora que merece integral apoio e que vejo com muito entusiasmo. O estabelecimento de uma nova governança global implica também a existência de lideranças capazes de impulsionarem este tipo de movimento. O companheiro Lula está totalmente habilitado a ser uma dessas lideranças por conta de sua visibilidade internacional e, principalmente, do êxito dos seus dois mandatos como Presidente de nosso país, em que o modelo econômico se distinguiu  do Consenso de Washington com muito sucesso.

b) O Senhor. poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: Os ataques ao companheiro Lula tem uma única motivação: a sua vinculação com o povo brasileiro, o compromisso dos seus governos com o povo trabalhador, a inversão de prioridades, a  mobilidade social de 40 milhões de pessoas, a fantástica ampliação das oportunidades e a continuidade destas políticas no Governo da Presidenta Dilma. Enfim, Lula é combatido pelos seus acertos como Presidente e pelo simbolismo que carrega como maior liderança política do PT. Quanto à visibilidade mundial que ele alcançou, acho que ele próprio já definiu bem: um governante que respeita seu povo é respeitado em qualquer lugar do mundo. 

c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
R: O Brasil sempre foi um país com potencialidade para ser um "player" importante no cenário mundial, faltava-lhe dirigentes políticos que incorporassem este entendimento. Com o Governo Lula isso começou a mudar e a reorientação da na ação diplomática também se deu. O Brasil vai continuar ganhando cada vez mais importância no cenário internacional e exercer mais influência, o que vai demandar uma postura mais ativa no campo diplomático. Isso já acontece, mas, há um largo campo de atuação que a diplomacia brasileira ainda tem que desenvolver para se ajustar a este novo patamar de influência que o Brasil está passando a exercer.  

d) Como o Sr. observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: É uma boa ideia, principalmente, se for usada pra ampliar o diálogo com a população mais pobre do nosso país. Há ainda muita necessidade de se escutar o povo. Ainda não tenho informação de que formato está sendo pensando ou se esta proposta vai se concretizar efetivamente, mas, é algo que vejo como positivo. Além disso, pode ser um instrumento positivo pra combater a ofensiva conservadora.



Giuseppe Cocco (*) possui graduação em Sciences Politiques - Universite de Paris VIII (1984), graduação em Scienze Politiche - Università degli Studi di Padova (1981), mestrado em Science Technologie et Société - Conservatoire National des Arts et Métiers (1988), mestrado em História Social - Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1986) e doutorado em História Social - Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1993). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Pós-Graduação da Escola de Comunicação e do Programa em Ciência de Informação (Facc-Ibict), Pesquisador 1 do CNPq, Cientista do Nosso Estado (Faperj), é editor das revistas - Global Brasil, - Lugar comum (1415-8604) e - Multitudes (Paris) (0292-0107). Coordena as coleções <> (ed. DP&A) e << A Política no Império>> (Civilização Brasileira). Tem experiência na área de Planejamento Urbano e Regional, com ênfase em Política Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: trabalho, comunicação, globalização, cidade, fordismo e cidadania. Publicou com Antonio Negri o livro GlobAL: Biopoder e lutas em uma América Latina globalizada, (Record:2005). O último livro publicado é MundoBRaz: o devir Brasil do mundo e o devir mundo do Brasil (Record, 2009).
a) Como o Sr. vê a contraposição entre Consenso de Washington e o pacto da nova governança global e desenvolvimento lançado por Lula?
R: Vejo a iniciativa como altamente positiva, rumo a um outro consenso, a um horizonte dos possíveis enfim aberto e democrático e com relação ao qual os pobres e os sul tenham todo seu espaço. Vejo de maneira ainda mais positiva o fato que a iniciativa venha do Sul, do Brasil, do ex-presidente Lula. É uma potente linha de continuidade com relação ao que ele fez e a Dilma continua no horizonte do governo da interdependência. Nessa política, há um devir-Brasil do mundo, um MundoBraz cujas bases sociais são as favelas, a potência dos pobres da qual Lula é, em parte, a insuportável – para a elite – expressão.

b) O senhor poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: Do ponto de vista dos conteúdos desses ataques não há nenhuma novidade. A elite brasileira continua sendo, nesse sentido, com os Senhores de escravos que não gostavam do abolicionismo britânico e não queriam acelerar o processo de abolição. Não perdoam ao Lula, além de suas origens, as pequenas mas potentes mudanças: o Prouni, o Reuni, as Cotas, a massificação do Bolsa Família, a valorização real do salário mínimo e agora a inflexão da escandalosa taxa de juros. É só o monopólio antidemocrático da mídia que permite à mídia brasileira de reproduzir (e se reproduzir) esse discurso.
Contudo, a veemência dos ataques se nutre também de algumas limitações importantes do governo Dilma e do próprio PT. Não me refiro apenas aos preocupantes fenômenos de burocratização do PT (que no Rio de Janeiro chegam a níveis preocupantes). Me refiro à incapacidade de apreender as dimensões estratégicas do que poderíamos definir como a produção de subjetividade. O que acontece no Ministério das Telecomunicações - que agora é do PT – é absurdo. Passamos de um período (aliás, não por acaso, logo depois da crise política de 2005) em que o governo sofria as pressões dos interesses das Televisões até o ponto que a TV digital foi poluída por esse lobby) à situação atual onde o governo fica atento demais ao lobby das telefônicas (alias, quase todas multinacionais). Pio quando olharmos para a cultura: a restauração do MinC depois 8 anos de inovação é inexplicável e mostra a incapacidade de entender que hoje a cultura está no cerne da economia, da própria produção de valor e com ela as redes (a internet) e suas infra-estruturas. E a cegueira parece continuar. Não se entendeu a inovação que eram os pontos de cultura enquanto política democrática e aberta para e junto aos jovens. Assim, hoje tenta-se “revolver” por meio de políticas de patrocínio e procurando fomentar alguns modelos cujo eixo fundamental, além de vazio de conteúdos de transformação, roda em torno de uma dinâmica de homogeneização que só pode dar a impressão de sucesso a executivos de governo que perderam os contatos com as reais dinâmicas de inovação democrática. Isso vale também com relação aos conflitos que atravessam as grandes obras, na floresta e na cidade. Há um víeis tecnocrático que tende a passar por cima das questões essências da participação democrática, a esquecer que a experiência de radicalização democrática de porto alegre foi o baluarte de resistência ao rolo compressor neoliberal.

d) Como o senhor observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: Acho essa decisão do Lula a melhor que ele podia tomar (e/ou indicar). Não se trata apenas de responder à ameaça de novo tipo, ou seja à tentativa de dar um lastro institucional ao tradicional golpismo da elite (nesse caso, com uma judicialização da política que seria um retrocesso incrível para o lento processo de democratização no Brasil. Se trata de ver que, o outro lado desses ataques, é uma redução das capacidades de transformação do governo, obrigando-o, com base nessa chantagem, a entregar ministérios (como foi o caso da Telecomunicações) aos interesses da elite e a se deixar atravessar ainda mais por forças conservadoras (como è o caso da Prefeitura e do Governo do Rio que, não por acaso, apesar de serem aliados do PT, são totalmente poupados pela mesma mídia que lincha o ex-Presidente Lula). A volta das caravanas e da mobilização é para responder pela reafirmação e atualização das bases radicalmente democráticas da mudança, das bases populares dos projetos e das políticas públicas.

Pedro Estevam Serrano (*) Possui graduação em Curso de Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo , Mestre e Doutor em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo . Atualmente é advogado sócio do escritório de advocacia Tojal, Teixeira Ferreira, Serrano e Renault Advogados Associados, professor assistente-mestre da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor nos cursos de especialização em direito administrativo e constitucional da PUC/SP.
a) Como o Sr. vê a contraposição entre Consenso de Washington e o pacto da nova governança global e desenvolvimento lançado por Lula?
R: O Consenso de Washington a meu ver foi a explicitação de valores de cunho político-econômico de uma governança mundial que se estabeleceu de fato, a partir da queda do muro de Berlim e das mudanças no modo de produção capitalista industrial para o pós-industrial.
Em síntese estamos saindo de uma sociedade organizada pela indústria, a partir de governos locais, hierarquias e disciplinas tendo por base da logica opressiva de expansão do capital o domínio dos corpos e a manutenção de amplos exércitos de mão de obra de reserva para uma sociedade de produção global, organizada em redes comunicativas, cuja logica opressiva da expansão do capital se funda na desterritorialização da produção e da cultura, no domínio e produção do desejo dos incluídos e na eliminação da vida dos excluídos.
Esta governança de fato, que tem alguns de seus valores dados no pacto de Washington, tem por características ser um poder de fato e não de direito, um poder de exceção global soberana, que se realiza em rede e não numa estrutura hierárquica possuidora de identidade e lugar no mundo.
Sua força de opressão e domínio vem do uso das forças armadas dos Estados locais como força de policia global, as desnaturando de sua vocação original de defesa territorial.
Utilizam-se dos Estados-nações e suas entidades internacionais como fonte discursiva de legitimação, mas serve de fato a interesses de grupos privados transnacionais, que não são  correspondentes a interesse de um povo, Estado ou território especifico no globo. Assim a noção de imperialismo é inadequada para descrevê-la, talvez sendo mais precisa a de Império no sentido adotado por Negri e Hardt.
Esta governança do capital global, não tenho duvida, é uma força genocida, tem por lógica e pressuposto a exclusão da vida de uma parte significativa da humanidade não por questões étnicas ou culturais mas sim econômicas, por não ter condições mínimas de integração no mercado de consumo e por sua desnecessidade nos processos capitalistas de produção .Não se trata de um contingente de reserva, mas sim de um contingente destinado a exclusão da vida e este contingente se espalha por todo planeta. Dos morros cariocas e sertões nordestinos à África subsaariana, do oriente médio à Ásia.
Corpos vagantes, vida nua desprovida de proteção politica, jurídica e econômica.
Parece-me que a tentativa de Lula, caso não se limite a um pacto ocasional com a socialdemocracia europeia, mas efetivamentente assuma contornos globais com forte participação de governos e agentes do terceiro mundo, poderá ser uma forte e bem vinda reação politica em prol da cidadania global. Um importante lance na formação de uma governança global que se paute, defenda e seja limitada nos direitos das pessoas e da humanidade e não na força cruel e genocida da exceção soberana a serviço do capital.

b) O senhor poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
O mundo enxerga a real dimensão de Lula e seu governo para o Brasil, o papel histórico que teve na tentativa mais intensa de modernização do capitalismo brasileiro, o que não se realiza sem amplas doses de inclusão social e ruptura com tradições culturais coloniais ainda arraigadas na visão de mundo de nossas elites euro-descendentes.
Nossa impressa ainda é a imprensa criada e modelada pela ditadura militar, que acabou com o pouco de pluralismo de opinião que havia na imprensa pré 64, a rede de jornais Ultima Hora do jornalista Samuel Weiner, por exemplo, que tinha uma linha de opinião mais progressista e nacionalista etc.
Tem diferenças de qualidade jornalística entre os órgãos mas no essencial representa a mesma forma de pensar, não ha pluralidade. Não há um jornal de grande circulação, uma rede de televisão aberta, que represente uma visão de real centro-esquerda por exemplo. A exceção é Carta Capital, que tem pouca circulação e esta sujeita ao monopólio da distribuição de revistas da Editora Abril.
Assim o correto valor de uma imprensa que não seja chapa-branca e que mantenha o espirito critico ante o governo virou alvará para o mau jornalismo persecutório e veiculador de preconceitos de classe assustadores num pais supostamente civilizado como o nosso.
Lula e o seu partido enfrentam um cerco inacreditável da mídia, ilações de bar são transformadas em manchete sem nenhum tipo de constrangimento. Enquanto isso a ausência de vigilância sobre governos do Partido de oposição no âmbito federal, como o governo de São Paulo, por exemplo, ou Minas, é também de estarrecer. Temos no Brasil um jornalismo de chapa branca regional. Tudo que se faz no âmbito estadual é permitido, sem critica, sem acompanhamento ou investigação.
Lula só merece as criticas mais pesadas da mídia, algumas de tamanho rancor e ódio que são inacreditáveis que ocorram num pais democrático ou minimamente civilizado.
Obviamente o mundo percebe de outro modo a figura de Lula, simplesmente porque a forma como ele é retratado na mídia local é absolutamente falsa. Ele e seu governo tiveram problemas graves, aliás, os graves mesmos não foram nem tocados pela mídia, pois diziam respeito também aos interesses do grande capital. Mas a desproporção da critica em problemas menores é tamanha e a ausência de uma avalição séria dos avanços de seu governo que geram uma profunda distorção na percepção que a mídia local propicia dele mesmo e de seu governo.

c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
O Brasil tem por missão humana se por como liderança na luta pela formação de uma cidadania global plena em direitos, pela formação de uma governança global submissa aos direitos da pessoa humana e de defesa da humanidade, ou seja, em essência, se por como uma liderança global das forças democráticas contra os abusos do Império do capital transnacional.

d) Como o senhor observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
Mais que bem vinda. Precisamos da cidadania mobilizada e prevenida contra qualquer forma de ataque ao regime democrático. Como bem observa Agamben, no mundo contemporâneo os atos de exceção vem travestidos no interior das rotinas democráticas. O preço da liberdade é a vigilância. Nesse momento é o povo na rua, pois parece que o povo na urna não foi o suficiente .

Hugo Albuquerque (*) Blogueiro, bacharel em direito e colaborador do Portal Outras Palavras.
a) Como o Sr. vê a contraposição entre Consenso de Washington e o pacto da nova governança global e desenvolvimento lançado por Lula?
R: Eu creio que não há simetria entre as duas coisas. Primeiro, porque existe um paradoxo aí: o Consenso de Washington, dentro do contexto do processo do neoliberalismo, foi menos importante do que parece: ao meu pensar, ele apenas foi uma boa síntese de um processo complexo- possibilitado pelas novas tecnologias de informação e comunicação e estruturado como uma reação do capital às políticas de bem-estar no interior do Capitalismo --, servindo apenas como um rótulo. A declaração de Lula, em si, tem um peso relativo mais profundo dentro do processo de resistência ao neoliberalismo, mas esse processo não conseguiu atingir ainda, se um dia atingir, massa crítica suficiente para brotar uma alternativa. A própria situação do Brasil hoje é um exemplo disso. Quando muitas coisas pareciam encaminhadas depois dos oito anos de Lula, veio o governo Dilma com alguns recuos e nós agora nos perguntamos qual é real a dimensão do Lulismo: Lula, em si, consegue ter uma noção da dimensão subjetiva que dita os rumos da economia e da política, mas não conseguiu formular isso de modo a, por exemplo, ter assegurado um governo de sucessão que contemplasse isso. Reconhecer isso não é cair em um antidilmismo pueril, como se vê aos montes, mas perceber que existe um recuo modernista em Dilma, no qual a ideia de assumir a direção do progresso da civilização é a receita certa para fazer brotar uma nova cultura -- o que não difere no método, por exemplo, ao que pensam os líderes europeus já há muito tempo, embora o dilmismo seja antagônico aos métodos que eles empregam: a União Europeia está paralisada por uma concepção privatista e financista da economia e um arranjo continental injusto, algo parecido com os Estados Unidos de Obama, o Brasil, não, conseguimos ter uma flexibilidade maior e uma mobilidade maior nesse sentido. Ainda assim, eu penso que considerar a política como instrumento de resolução disso, em vez do gerencialismo economicista dos líderes não-eleitos (como vemos, agora, na Itália), é algo importante, mas precisamos nos livrar dos gerencialismos que continuaram existindo nos anos Lula e voltaram com mais força agora, com Dilma, inclusive por conta dela mesma: É preciso pensar em mais participação e mais investimento público, em vez de isenções e reduções de alíquotas para o capital.”
b) Poderias tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: Veja bem, Lula é elogiado pela "opinião pública mundial", mas ele não agrada à elite tradicional brasileira e isso está totalmente relacionado. Porque ela sempre viveu das sobras do arranjo imperialista mundial (seja a pax britanica ou a pax americana) e isso sempre pareceu um negócio menos arriscado do que desenvolver o país em moldes nacionais. Pior ainda, ser aliada desse esquema sempre lhe permitiu aliados valorosos na contenção de uma situação insustentável de desigualdade. Se o regime do apartheid, em sua insustentável leveza, só conseguiu sobreviver durante o contexto específico da Guerra Fria, o nosso apartheid social demanda um posicionamento do Brasil na esfera internacional que não encontra lugar desde 2002. Desde sempre, a elite brasileira vendeu uma imagem absurda de sua esquerda para a comunidade internacional, com o intuito de angariar apoio desavisado para seu mando, isso aconteceu várias vezes com êxito, como, por exemplo, durante a ditadura militar. Hoje, isso acabou. No fundo, talvez a direita mundial não goste muito de Lula, mas ela não consegue produzir um efeito internacional de desmoralização do governo do PT, porque não existem bases que façam importantes setores do mundo globalizado acreditarem mais que a esquerda do Brasil, ou os efeitos de uma inclusão social massiva por aqui, seja motivo para pânico. Sem o apoio americano ou da direita da Europa, como conter mudanças sociais no Brasil? Sem conter mudanças sociais, como manter o apartheid social no Brasil? Como manter o muro da vergonha que divide uma metrópole como São Paulo em duas, uma pobre e outra rica (como lembrou bem o prefeito eleito Fernando Haddad)? Só partindo para uma manobra violenta que, nos dias de hoje, precisa ser branca e higiênica, fazer uso da mídia, do judiciário. Eu temo que possa haver uma radicalização desses setores, mas eles, por outro lado, não têm mais o apoio de Washington e há uma fratura importante na burguesia brasileira.
c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
R: O MundoBraz do meu amigo Giuseppe Cocco é uma obra que trata de uma hipótese muito bem estruturada, e com enormes potencialidades, sobre os desdobramentos múltiplos da inserção do Brasil no mundo: por exemplo, ela trata o desenvolvimentismo que estava em Lula e tornou-se hegemônico em Dilma (e, repito, por conta dela própria) mira o modelo de um mundo do norte que se torna, ironicamente, cada vez mais parecido com o Brasil. O nosso "futuro", que mira o "passado" glorioso da Europa e dos EUA, corre o risco de ser alcançado só no "presente" dos "países desenvolvidos"; o modelo deles está resultando em um Brasil, enquanto o foi deflagrado algo muito importante no nosso país nos últimos anos, algo que pode ter uma utilidade maior do que se restringir a, quem sabe, servir de mero insumo para a adoção de um modelo que nos fará chegar apenas onde já estamos, como um andar em círculo. O Lulismo precisa assumir uma faceta que devenha Mundo, mas que não queria ser Mundo.
d) Como o Sr. observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: É uma manobra ofensivo-defensiva contra esse movimento recente da direita brasileira. Partiram para o ataque com força, articularam um julgamento de exceção no qual lideranças do Partido dos Trabalhadores foram condenadas sem provas, por ilações, construções meramente abstratas. Isso não evitou a derrota desses setores em São Paulo, a nova derrota no Rio e assim por diante, mas mesmo assim Lula sabe que precisa dar uma resposta, porque sua própria cabeça está a prêmio, seja como reação a tais vitórias ou pelo flanco aberto pelo julgamento do Mensalão. Agora, eu penso que temos um problema. Sempre insisti que o PT corria o risco de ser engolido pelas mudanças que ele próprio deflagrou e, ironicamente, é o STF (mal) escolhido por Lula e Dilma que consiste, hoje, na principal ameaça institucional ao processo de democratização. Lula sabe que precisará fazer movimento, mas precisa ter esse quadro em mente, senão isso será ineficaz -- mais até do que isso, ele precisa fazer dessas caravanas um meio para desenferrujar o próprio PT de uma burocratização inerente às atividades estatais, sobretudo pela sua presença no governo federal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Compartilhe

Leia Mais

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...