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domingo, 16 de dezembro de 2012

Sobre Globalização, Lulismo e o Petismo.



Sobre Globalização, Lulismo e o Petismo.


Vive-se uma era de transição ímpar na fábula recente. Tanto no Brasil quanto mundo afora a luta entre 99% e 1% faz a teoria do fim da história de Francis Fukuyama se desmoralizar. Com o olhar na visita de Lula e de Dilma à França, o lançamento de um novo pacto desenvolvimentista e progressista, e na campanha contra Lula e o PT na grande mídia, o blog procurou questionar a notáveis, militantes e a intelectuais sobre a conjuntura e correlação de forças com foco no Brasil, sobre o Lulismo e o Petismo, em face a globalização: Valter Pomar, Ivan Alex Teixeira Lima, Giuseppe Cocco, Pedro Estevam Serrano e Hugo Albuquerque abrilhantam um debate que pode e deve ter a sua participação. Seguem as questões e as respostas.

também publicado no Blog da Dilma

Valter Pomar (*) Dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores e secretário executivo do Foro de São Paulo.
a) Como o Senhor vê a contraposição entre Consenso de Washington e o Pacto da Nova Governança Global e Desenvolvimento lançado por Lula, em seu discurso na França?
R: O Consenso de Washington está ideologicamente desmoralizado. Mas continua econômica e politicamente poderoso. As políticas de austeridade, de orientação neoliberal, continuam sendo hegemônicas na Europa, EUA e Japão. Tudo que atua no sentido de superar estas políticas é positivo. Mas, evidente, nem tudo que se propõe a superar o neoliberalismo, terá êxito, nem o fará em benefício dos trabalhadores. Uma parte da esquerda europeia e brasileira, por exemplo, ataca o neoliberalismo, mas continua prisioneira de conceitos e práticas herdeiras do Consenso de Washington.

b) O Senhor poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: A imprensa brasileira é, majoritariamente, propriedade e porta-voz das classes dominantes. E a posição hegemônica das classes dominantes brasileiras, acerca do PT e de Lula, é "na falta de alternativa, suportar; aceitar jamais, e fazer tudo para que seja passageiro e não volte mais". Fora do país a visão é mais matizada. Mas não nos iludamos: Lula é elogiado como estadista quando interessa, mas quando não interessa o atacam como ocorreu no caso das negociações entre Irã, Turquia e Brasil.

c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
R: O nosso governo deve trabalhar para que o Brasil lidere um bloco de países latino-americanos e caribenhos. Devemos trabalhar, também, para que a integração regional seja combinada com uma mudança profunda na ordem econômico social de nossos países. E se preparar para enfrentamentos cada vez mais duros com os que se pretendem donos do mundo.

d) Como o senhor observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: Acho bom que o Lula viaje o país. Mas, pensando estrategicamente, o mais importante é que o PT e as demais organizações da classe trabalhadora se fortaleçam. Precisamos de mais petismo, mais CUTismo, mais organização e consciência de classe. O lulismo é importante do ponto de vista tático, mas o petismo é decisivo estrategicamente.

Ivan Alex Teixeira Lima (*) Dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores e Secretário de comunicação do PT na Bahia
a) Como o Senhor vê a contraposição entre Consenso de Washington e o Pacto da Nova Governança Global e Desenvolvimento lançado por Lula, em seu discurso na França?
R: O Consenso de Washington fracassou em absoluto. A crise econômica que eclodiu em 2008 que tem produzido milhões de desempregados em todo mundo e especialmente na Europa em particular é a prova mais cabal de seu fracasso. Um pacto por uma nova governança global e desenvolvimento é uma ideia inovadora que merece integral apoio e que vejo com muito entusiasmo. O estabelecimento de uma nova governança global implica também a existência de lideranças capazes de impulsionarem este tipo de movimento. O companheiro Lula está totalmente habilitado a ser uma dessas lideranças por conta de sua visibilidade internacional e, principalmente, do êxito dos seus dois mandatos como Presidente de nosso país, em que o modelo econômico se distinguiu  do Consenso de Washington com muito sucesso.

b) O Senhor. poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: Os ataques ao companheiro Lula tem uma única motivação: a sua vinculação com o povo brasileiro, o compromisso dos seus governos com o povo trabalhador, a inversão de prioridades, a  mobilidade social de 40 milhões de pessoas, a fantástica ampliação das oportunidades e a continuidade destas políticas no Governo da Presidenta Dilma. Enfim, Lula é combatido pelos seus acertos como Presidente e pelo simbolismo que carrega como maior liderança política do PT. Quanto à visibilidade mundial que ele alcançou, acho que ele próprio já definiu bem: um governante que respeita seu povo é respeitado em qualquer lugar do mundo. 

c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
R: O Brasil sempre foi um país com potencialidade para ser um "player" importante no cenário mundial, faltava-lhe dirigentes políticos que incorporassem este entendimento. Com o Governo Lula isso começou a mudar e a reorientação da na ação diplomática também se deu. O Brasil vai continuar ganhando cada vez mais importância no cenário internacional e exercer mais influência, o que vai demandar uma postura mais ativa no campo diplomático. Isso já acontece, mas, há um largo campo de atuação que a diplomacia brasileira ainda tem que desenvolver para se ajustar a este novo patamar de influência que o Brasil está passando a exercer.  

d) Como o Sr. observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: É uma boa ideia, principalmente, se for usada pra ampliar o diálogo com a população mais pobre do nosso país. Há ainda muita necessidade de se escutar o povo. Ainda não tenho informação de que formato está sendo pensando ou se esta proposta vai se concretizar efetivamente, mas, é algo que vejo como positivo. Além disso, pode ser um instrumento positivo pra combater a ofensiva conservadora.



Giuseppe Cocco (*) possui graduação em Sciences Politiques - Universite de Paris VIII (1984), graduação em Scienze Politiche - Università degli Studi di Padova (1981), mestrado em Science Technologie et Société - Conservatoire National des Arts et Métiers (1988), mestrado em História Social - Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1986) e doutorado em História Social - Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1993). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Pós-Graduação da Escola de Comunicação e do Programa em Ciência de Informação (Facc-Ibict), Pesquisador 1 do CNPq, Cientista do Nosso Estado (Faperj), é editor das revistas - Global Brasil, - Lugar comum (1415-8604) e - Multitudes (Paris) (0292-0107). Coordena as coleções <> (ed. DP&A) e << A Política no Império>> (Civilização Brasileira). Tem experiência na área de Planejamento Urbano e Regional, com ênfase em Política Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: trabalho, comunicação, globalização, cidade, fordismo e cidadania. Publicou com Antonio Negri o livro GlobAL: Biopoder e lutas em uma América Latina globalizada, (Record:2005). O último livro publicado é MundoBRaz: o devir Brasil do mundo e o devir mundo do Brasil (Record, 2009).
a) Como o Sr. vê a contraposição entre Consenso de Washington e o pacto da nova governança global e desenvolvimento lançado por Lula?
R: Vejo a iniciativa como altamente positiva, rumo a um outro consenso, a um horizonte dos possíveis enfim aberto e democrático e com relação ao qual os pobres e os sul tenham todo seu espaço. Vejo de maneira ainda mais positiva o fato que a iniciativa venha do Sul, do Brasil, do ex-presidente Lula. É uma potente linha de continuidade com relação ao que ele fez e a Dilma continua no horizonte do governo da interdependência. Nessa política, há um devir-Brasil do mundo, um MundoBraz cujas bases sociais são as favelas, a potência dos pobres da qual Lula é, em parte, a insuportável – para a elite – expressão.

b) O senhor poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: Do ponto de vista dos conteúdos desses ataques não há nenhuma novidade. A elite brasileira continua sendo, nesse sentido, com os Senhores de escravos que não gostavam do abolicionismo britânico e não queriam acelerar o processo de abolição. Não perdoam ao Lula, além de suas origens, as pequenas mas potentes mudanças: o Prouni, o Reuni, as Cotas, a massificação do Bolsa Família, a valorização real do salário mínimo e agora a inflexão da escandalosa taxa de juros. É só o monopólio antidemocrático da mídia que permite à mídia brasileira de reproduzir (e se reproduzir) esse discurso.
Contudo, a veemência dos ataques se nutre também de algumas limitações importantes do governo Dilma e do próprio PT. Não me refiro apenas aos preocupantes fenômenos de burocratização do PT (que no Rio de Janeiro chegam a níveis preocupantes). Me refiro à incapacidade de apreender as dimensões estratégicas do que poderíamos definir como a produção de subjetividade. O que acontece no Ministério das Telecomunicações - que agora é do PT – é absurdo. Passamos de um período (aliás, não por acaso, logo depois da crise política de 2005) em que o governo sofria as pressões dos interesses das Televisões até o ponto que a TV digital foi poluída por esse lobby) à situação atual onde o governo fica atento demais ao lobby das telefônicas (alias, quase todas multinacionais). Pio quando olharmos para a cultura: a restauração do MinC depois 8 anos de inovação é inexplicável e mostra a incapacidade de entender que hoje a cultura está no cerne da economia, da própria produção de valor e com ela as redes (a internet) e suas infra-estruturas. E a cegueira parece continuar. Não se entendeu a inovação que eram os pontos de cultura enquanto política democrática e aberta para e junto aos jovens. Assim, hoje tenta-se “revolver” por meio de políticas de patrocínio e procurando fomentar alguns modelos cujo eixo fundamental, além de vazio de conteúdos de transformação, roda em torno de uma dinâmica de homogeneização que só pode dar a impressão de sucesso a executivos de governo que perderam os contatos com as reais dinâmicas de inovação democrática. Isso vale também com relação aos conflitos que atravessam as grandes obras, na floresta e na cidade. Há um víeis tecnocrático que tende a passar por cima das questões essências da participação democrática, a esquecer que a experiência de radicalização democrática de porto alegre foi o baluarte de resistência ao rolo compressor neoliberal.

d) Como o senhor observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: Acho essa decisão do Lula a melhor que ele podia tomar (e/ou indicar). Não se trata apenas de responder à ameaça de novo tipo, ou seja à tentativa de dar um lastro institucional ao tradicional golpismo da elite (nesse caso, com uma judicialização da política que seria um retrocesso incrível para o lento processo de democratização no Brasil. Se trata de ver que, o outro lado desses ataques, é uma redução das capacidades de transformação do governo, obrigando-o, com base nessa chantagem, a entregar ministérios (como foi o caso da Telecomunicações) aos interesses da elite e a se deixar atravessar ainda mais por forças conservadoras (como è o caso da Prefeitura e do Governo do Rio que, não por acaso, apesar de serem aliados do PT, são totalmente poupados pela mesma mídia que lincha o ex-Presidente Lula). A volta das caravanas e da mobilização é para responder pela reafirmação e atualização das bases radicalmente democráticas da mudança, das bases populares dos projetos e das políticas públicas.

Pedro Estevam Serrano (*) Possui graduação em Curso de Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo , Mestre e Doutor em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo . Atualmente é advogado sócio do escritório de advocacia Tojal, Teixeira Ferreira, Serrano e Renault Advogados Associados, professor assistente-mestre da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor nos cursos de especialização em direito administrativo e constitucional da PUC/SP.
a) Como o Sr. vê a contraposição entre Consenso de Washington e o pacto da nova governança global e desenvolvimento lançado por Lula?
R: O Consenso de Washington a meu ver foi a explicitação de valores de cunho político-econômico de uma governança mundial que se estabeleceu de fato, a partir da queda do muro de Berlim e das mudanças no modo de produção capitalista industrial para o pós-industrial.
Em síntese estamos saindo de uma sociedade organizada pela indústria, a partir de governos locais, hierarquias e disciplinas tendo por base da logica opressiva de expansão do capital o domínio dos corpos e a manutenção de amplos exércitos de mão de obra de reserva para uma sociedade de produção global, organizada em redes comunicativas, cuja logica opressiva da expansão do capital se funda na desterritorialização da produção e da cultura, no domínio e produção do desejo dos incluídos e na eliminação da vida dos excluídos.
Esta governança de fato, que tem alguns de seus valores dados no pacto de Washington, tem por características ser um poder de fato e não de direito, um poder de exceção global soberana, que se realiza em rede e não numa estrutura hierárquica possuidora de identidade e lugar no mundo.
Sua força de opressão e domínio vem do uso das forças armadas dos Estados locais como força de policia global, as desnaturando de sua vocação original de defesa territorial.
Utilizam-se dos Estados-nações e suas entidades internacionais como fonte discursiva de legitimação, mas serve de fato a interesses de grupos privados transnacionais, que não são  correspondentes a interesse de um povo, Estado ou território especifico no globo. Assim a noção de imperialismo é inadequada para descrevê-la, talvez sendo mais precisa a de Império no sentido adotado por Negri e Hardt.
Esta governança do capital global, não tenho duvida, é uma força genocida, tem por lógica e pressuposto a exclusão da vida de uma parte significativa da humanidade não por questões étnicas ou culturais mas sim econômicas, por não ter condições mínimas de integração no mercado de consumo e por sua desnecessidade nos processos capitalistas de produção .Não se trata de um contingente de reserva, mas sim de um contingente destinado a exclusão da vida e este contingente se espalha por todo planeta. Dos morros cariocas e sertões nordestinos à África subsaariana, do oriente médio à Ásia.
Corpos vagantes, vida nua desprovida de proteção politica, jurídica e econômica.
Parece-me que a tentativa de Lula, caso não se limite a um pacto ocasional com a socialdemocracia europeia, mas efetivamentente assuma contornos globais com forte participação de governos e agentes do terceiro mundo, poderá ser uma forte e bem vinda reação politica em prol da cidadania global. Um importante lance na formação de uma governança global que se paute, defenda e seja limitada nos direitos das pessoas e da humanidade e não na força cruel e genocida da exceção soberana a serviço do capital.

b) O senhor poderia tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
O mundo enxerga a real dimensão de Lula e seu governo para o Brasil, o papel histórico que teve na tentativa mais intensa de modernização do capitalismo brasileiro, o que não se realiza sem amplas doses de inclusão social e ruptura com tradições culturais coloniais ainda arraigadas na visão de mundo de nossas elites euro-descendentes.
Nossa impressa ainda é a imprensa criada e modelada pela ditadura militar, que acabou com o pouco de pluralismo de opinião que havia na imprensa pré 64, a rede de jornais Ultima Hora do jornalista Samuel Weiner, por exemplo, que tinha uma linha de opinião mais progressista e nacionalista etc.
Tem diferenças de qualidade jornalística entre os órgãos mas no essencial representa a mesma forma de pensar, não ha pluralidade. Não há um jornal de grande circulação, uma rede de televisão aberta, que represente uma visão de real centro-esquerda por exemplo. A exceção é Carta Capital, que tem pouca circulação e esta sujeita ao monopólio da distribuição de revistas da Editora Abril.
Assim o correto valor de uma imprensa que não seja chapa-branca e que mantenha o espirito critico ante o governo virou alvará para o mau jornalismo persecutório e veiculador de preconceitos de classe assustadores num pais supostamente civilizado como o nosso.
Lula e o seu partido enfrentam um cerco inacreditável da mídia, ilações de bar são transformadas em manchete sem nenhum tipo de constrangimento. Enquanto isso a ausência de vigilância sobre governos do Partido de oposição no âmbito federal, como o governo de São Paulo, por exemplo, ou Minas, é também de estarrecer. Temos no Brasil um jornalismo de chapa branca regional. Tudo que se faz no âmbito estadual é permitido, sem critica, sem acompanhamento ou investigação.
Lula só merece as criticas mais pesadas da mídia, algumas de tamanho rancor e ódio que são inacreditáveis que ocorram num pais democrático ou minimamente civilizado.
Obviamente o mundo percebe de outro modo a figura de Lula, simplesmente porque a forma como ele é retratado na mídia local é absolutamente falsa. Ele e seu governo tiveram problemas graves, aliás, os graves mesmos não foram nem tocados pela mídia, pois diziam respeito também aos interesses do grande capital. Mas a desproporção da critica em problemas menores é tamanha e a ausência de uma avalição séria dos avanços de seu governo que geram uma profunda distorção na percepção que a mídia local propicia dele mesmo e de seu governo.

c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
O Brasil tem por missão humana se por como liderança na luta pela formação de uma cidadania global plena em direitos, pela formação de uma governança global submissa aos direitos da pessoa humana e de defesa da humanidade, ou seja, em essência, se por como uma liderança global das forças democráticas contra os abusos do Império do capital transnacional.

d) Como o senhor observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
Mais que bem vinda. Precisamos da cidadania mobilizada e prevenida contra qualquer forma de ataque ao regime democrático. Como bem observa Agamben, no mundo contemporâneo os atos de exceção vem travestidos no interior das rotinas democráticas. O preço da liberdade é a vigilância. Nesse momento é o povo na rua, pois parece que o povo na urna não foi o suficiente .

Hugo Albuquerque (*) Blogueiro, bacharel em direito e colaborador do Portal Outras Palavras.
a) Como o Sr. vê a contraposição entre Consenso de Washington e o pacto da nova governança global e desenvolvimento lançado por Lula?
R: Eu creio que não há simetria entre as duas coisas. Primeiro, porque existe um paradoxo aí: o Consenso de Washington, dentro do contexto do processo do neoliberalismo, foi menos importante do que parece: ao meu pensar, ele apenas foi uma boa síntese de um processo complexo- possibilitado pelas novas tecnologias de informação e comunicação e estruturado como uma reação do capital às políticas de bem-estar no interior do Capitalismo --, servindo apenas como um rótulo. A declaração de Lula, em si, tem um peso relativo mais profundo dentro do processo de resistência ao neoliberalismo, mas esse processo não conseguiu atingir ainda, se um dia atingir, massa crítica suficiente para brotar uma alternativa. A própria situação do Brasil hoje é um exemplo disso. Quando muitas coisas pareciam encaminhadas depois dos oito anos de Lula, veio o governo Dilma com alguns recuos e nós agora nos perguntamos qual é real a dimensão do Lulismo: Lula, em si, consegue ter uma noção da dimensão subjetiva que dita os rumos da economia e da política, mas não conseguiu formular isso de modo a, por exemplo, ter assegurado um governo de sucessão que contemplasse isso. Reconhecer isso não é cair em um antidilmismo pueril, como se vê aos montes, mas perceber que existe um recuo modernista em Dilma, no qual a ideia de assumir a direção do progresso da civilização é a receita certa para fazer brotar uma nova cultura -- o que não difere no método, por exemplo, ao que pensam os líderes europeus já há muito tempo, embora o dilmismo seja antagônico aos métodos que eles empregam: a União Europeia está paralisada por uma concepção privatista e financista da economia e um arranjo continental injusto, algo parecido com os Estados Unidos de Obama, o Brasil, não, conseguimos ter uma flexibilidade maior e uma mobilidade maior nesse sentido. Ainda assim, eu penso que considerar a política como instrumento de resolução disso, em vez do gerencialismo economicista dos líderes não-eleitos (como vemos, agora, na Itália), é algo importante, mas precisamos nos livrar dos gerencialismos que continuaram existindo nos anos Lula e voltaram com mais força agora, com Dilma, inclusive por conta dela mesma: É preciso pensar em mais participação e mais investimento público, em vez de isenções e reduções de alíquotas para o capital.”
b) Poderias tecer considerações sobre a visão mundial sobre o Lula como estadista, e a onda de ataques que ele recebe pela imprensa brasileira?
R: Veja bem, Lula é elogiado pela "opinião pública mundial", mas ele não agrada à elite tradicional brasileira e isso está totalmente relacionado. Porque ela sempre viveu das sobras do arranjo imperialista mundial (seja a pax britanica ou a pax americana) e isso sempre pareceu um negócio menos arriscado do que desenvolver o país em moldes nacionais. Pior ainda, ser aliada desse esquema sempre lhe permitiu aliados valorosos na contenção de uma situação insustentável de desigualdade. Se o regime do apartheid, em sua insustentável leveza, só conseguiu sobreviver durante o contexto específico da Guerra Fria, o nosso apartheid social demanda um posicionamento do Brasil na esfera internacional que não encontra lugar desde 2002. Desde sempre, a elite brasileira vendeu uma imagem absurda de sua esquerda para a comunidade internacional, com o intuito de angariar apoio desavisado para seu mando, isso aconteceu várias vezes com êxito, como, por exemplo, durante a ditadura militar. Hoje, isso acabou. No fundo, talvez a direita mundial não goste muito de Lula, mas ela não consegue produzir um efeito internacional de desmoralização do governo do PT, porque não existem bases que façam importantes setores do mundo globalizado acreditarem mais que a esquerda do Brasil, ou os efeitos de uma inclusão social massiva por aqui, seja motivo para pânico. Sem o apoio americano ou da direita da Europa, como conter mudanças sociais no Brasil? Sem conter mudanças sociais, como manter o apartheid social no Brasil? Como manter o muro da vergonha que divide uma metrópole como São Paulo em duas, uma pobre e outra rica (como lembrou bem o prefeito eleito Fernando Haddad)? Só partindo para uma manobra violenta que, nos dias de hoje, precisa ser branca e higiênica, fazer uso da mídia, do judiciário. Eu temo que possa haver uma radicalização desses setores, mas eles, por outro lado, não têm mais o apoio de Washington e há uma fratura importante na burguesia brasileira.
c) À luz da favelização do mundo e da mundialização do Brasil, qual implicação traz à posição do Brasil no campo diplomático internacional?
R: O MundoBraz do meu amigo Giuseppe Cocco é uma obra que trata de uma hipótese muito bem estruturada, e com enormes potencialidades, sobre os desdobramentos múltiplos da inserção do Brasil no mundo: por exemplo, ela trata o desenvolvimentismo que estava em Lula e tornou-se hegemônico em Dilma (e, repito, por conta dela própria) mira o modelo de um mundo do norte que se torna, ironicamente, cada vez mais parecido com o Brasil. O nosso "futuro", que mira o "passado" glorioso da Europa e dos EUA, corre o risco de ser alcançado só no "presente" dos "países desenvolvidos"; o modelo deles está resultando em um Brasil, enquanto o foi deflagrado algo muito importante no nosso país nos últimos anos, algo que pode ter uma utilidade maior do que se restringir a, quem sabe, servir de mero insumo para a adoção de um modelo que nos fará chegar apenas onde já estamos, como um andar em círculo. O Lulismo precisa assumir uma faceta que devenha Mundo, mas que não queria ser Mundo.
d) Como o Sr. observa a proposta de Lula de retomar as Caravanas da Cidadania.
R: É uma manobra ofensivo-defensiva contra esse movimento recente da direita brasileira. Partiram para o ataque com força, articularam um julgamento de exceção no qual lideranças do Partido dos Trabalhadores foram condenadas sem provas, por ilações, construções meramente abstratas. Isso não evitou a derrota desses setores em São Paulo, a nova derrota no Rio e assim por diante, mas mesmo assim Lula sabe que precisa dar uma resposta, porque sua própria cabeça está a prêmio, seja como reação a tais vitórias ou pelo flanco aberto pelo julgamento do Mensalão. Agora, eu penso que temos um problema. Sempre insisti que o PT corria o risco de ser engolido pelas mudanças que ele próprio deflagrou e, ironicamente, é o STF (mal) escolhido por Lula e Dilma que consiste, hoje, na principal ameaça institucional ao processo de democratização. Lula sabe que precisará fazer movimento, mas precisa ter esse quadro em mente, senão isso será ineficaz -- mais até do que isso, ele precisa fazer dessas caravanas um meio para desenferrujar o próprio PT de uma burocratização inerente às atividades estatais, sobretudo pela sua presença no governo federal.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Sobre secas e os sertões

Na região Nordeste do Brasil se encontra a área de clima semi-árido mais densamente povoada do mundo. No ano de 2012 o ciclo de estiagem torna a massacrar as populações mais humildes. Quais os reflexos das políticas públicas neste universo?

Em entrevista coletiva realizada no dia 22 de novembro, a Governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini (DEM), estimou o prejuízo à economia do estado causado pela estiagem em 5 bilhões de Reais e, apontou a falta de apoio do governo federal e redução nos repasses do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) como a razão da calamidade enfrentada pela população carente e pequenos produtores agrícolas.
O Deputado Estadual Fernando Mineiro (PT-RN) é contundente ao afirmar: “Rosalba culpa a seca e Dilma para esconder sua própria incompetência”. O parlamentar já visitou as cinco regiões do Rio Grande do Norte e continua o seu trabalho, esclareceu ao Blog que na próxima semana visitará Mato Grande. Ainda explana que o Governo Federal disponibiliza verbas para obras estruturantes e ações emergenciais, porém o executivo estadual peca pela incapacidade em executar projetos.

O legislador elucida que em suas viagens tem mobilizado os setores da sociedade e expõe a existência de recursos para as obras estruturantes e para as ações emergenciais. Justifica as suas afirmações com fatos,  como o Estado ter excesso de arrecadação de ICMS e a variação negativa do FPE de 2011 para 2012 (considerado até novembro), ser de apenas 1,15%,  uma diferença inexpressiva.

O Deputado, maior nome de oposição ao último governo do DEM no Brasil, é autor do projeto de lei que institui a Política Estadual de Combate e Prevenção à Desertificação no Estado do Rio Grande do Norte, aponta que os recursos destinados ao combate à seca são objeto de investigação por parte do Tribunal de Contas do Estado. O Deputado é veemente defensor de que os recursos federais para o combate à seca sejam aplicados com probidade.

Ouvido pelo Blog, Aldemir Freire, Chefe da unidade estadual do IBGE no RN, afirma que os 5 bilhões que a governadora declara como o prejuízo à economia do estado é um delírio, pois somado todo o PIB da agricultura e da pecuária não se alcança este valor, acrescenta que somados, provavelmente o PIB destes setores econômicos obtem-se no máximo o número de 700 milhões de Reais no RN.

Para o economista, a seca tem um impacto insignificante na economia do RN, pois o PIB da agricultura e pecuária é gerado massisamente pelo agronegócio. Entretanto, aponta que a seca se mostra muito mais como um drama social do que como problema econômico. Para ilustrar o drama do pequeno agricultor, ele demonstra que a produção de feijão caiu mais de 90%, a de milho 96%, a de arroz 42%, o algodão 77%, a castanha de caju 66%, e a de sorgo 66%.

Ainda segundo Aldemir Freire, as transferências do bolsa família e os benefícios previdenciários como as aposentadoria rurais funcionam como um colchão de proteção social, e assim a seca tem atualmente um efeito diferente do que tinha há 30 anos atrás, quando os agricultores desassistidos e famintos invadiam feiras e realizavam saques.

Para o professor de agronomia da UFERSA (Universidade Federal Rural do Semi-Árido), Luiz Soares, "é preciso separar a geografia humana da capacidade de sobrevivência da produção agrícola no semiárido nordestino". Para o pesquisador, a constante temperatura e umidade relativa do ar de nosso semi-árido torna possível, com um planejamento técnico adequado, duas safras por ano, com único pré-requisito o de deixar ao alcance do agricultor a água.

O acadêmico arremata que "nenhuma seca é maior que outra, mas em verdade os problemas sociais variam conforme a determinação em compreender, programar e executar as obras estruturantes que se fazem necessárias; aliando a isso um bom programa de capacitação e gestão produtiva"

Imagens nas regiões de Campo grande, Parau, Triunfo Potiguar e Janduís, gentilmente cedidas pelo mandato do Deputado Fernando Mineiro. Fotos por Vlademir Alexandre
































Matéria publicado no Blog da Dilma

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Reforma Política

A Reforma Política

Há anos em tramitação nas casas legislativas, nenhuma transformação é tão importante e pode garantir o acesso da população de modo direto a seus direitos como a reforma política. Do que se trata, quais as razões que a impedem de ser?

Hoje, 11/12/2012, o sítio da Câmara Federal dá notícia que pode começar a votação em plenário da reforma política. A proposta é debatida há quase dois anos no Congresso Federal, e segundo declarações do Deputado João Paulo Lima (PT-PE) ao Portal do PT, um dos pontos centrais que travam a votação é o financiamento público de campanha:

"Como está muito difícil estamos lutando para que, no mínimo, duas questões sejam aprovadas no Congresso Nacional. Primeiro o financiamento público de campanha, que é fundamental para evitar a corrupção, desvios de recursos e para que setores significativos da sociedade, principalmente das representações populares de trabalhadores possam disputar as eleições. Segundo é a participação da mulher".

Para o Jurista Catedrático Paulo Lopo Saraiva, assessor parlamentar na Assembléia Constituinte de 1988 e autor da emenda 420 para o art. 14 da CF 88, que trata dos institutos do plebiscito, referendo e iniciativa popular, "naquele momento foi inserido na CF a possibilidade do povo participar da política de modo direto e real. Infelizmente esta prática não é utilizada no Brasil, uma prática republicana e que pode ajudar inclusive ao Governo Federal e no combate à Corrupção." O jurista lamenta a não inclusão na CF-88 do instituto do veto Popular. Ainda segundo do Douto Professor "Falta consciência  educação política e mobilização para que o povo efetive os seus direitos, assim como o povo do Egito faz no momento."

De outro pórtico, o Presidente da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB-RN, Evandro de Oliveira Borges arremata: "A reforma política é maior que uma reforma eleitoral, e os seus eixos precisam encontrar consenso no Congresso Nacional. Sem o consenso a reforma não avançará. A reforma que se precisa, deve atingir as coligações, tratar da fidelidade partidária, do financiamento de campanha, mas precisa de consenso. Por exemplo, o voto distrital, o voto proporcional, ainda não chegaram a ser debatidos na sociedade. Os partidos políticos pequenos não concordam. A sociedade já avançou em diversos pontos, como a ficha limpa, que atinge a estrutura do poder. A reforma eleitoral eleitoral não é uma panaceia para os problemas do Brasil, é uma questão menor que a reforma política"

A seguir há a opinião pessoal deste escriba:

a) A fidelidade partidária é essencial para o fortalecimento da democracia, ponto central da construção de partidos mais representativos, do fortalecimento de programas de Estado e de Governo e um ataque ao personalismo. Com a consagração da fidelidade partidária o político que desejar trocar de partido deve entregar o mandato e pode se candidatar de novo, na eleição seguinte, pelo seu novo partido. Em mesmo sentido do fortalecimento do plano ideológico dos partidos, a instituição de candidaturas avulsas seria um desserviço à sociedade.

b) O voto facultativo é um ponto com grande apoio no eleitorado. Destarte, as sanções a quem não cumpre o direito-dever do voto não possuem qualquer contundência e, possivelmente as camadas mais pobres da sociedade se afastariam das urnas. Entendendo o voto como um direito-dever faz este escriba ter posição favorável ao voto obrigatório. 

c) É importante lembrar que o PT quase foi vítima da cláusula de barreira da ditadura militar nas eleições de 1982. Neste particular, a cláusula de desempenho como obrigação de que um partido atinja determinada porcentagem dos votos para que tenha direito a assentos no parlamento, tempo de televisão e dinheiro do fundo partidário se apresenta como antídoto contra os partidos de aluguel. Um assunto polêmico que roga maneiras alternativas para suprimir as agremiações de aluguel e sem ideologia e programa político.

d) O absurdo em relação à reeleição jamais foi o instituto em si, mas ele ser aprovado mudando as regras com o jogo em andamento, com compra de votos de parlamentares e o propósito de favorecer os governantes da época. Um período de oito anos de governo com a possibilidade de opção popular por mudança em sua metade não se apresenta como um risco ao Republicanismo.

e)  As coligações nas eleições proporcionais são um contra-censo que deve acabar. Nas eleições proporcionais brasileiras, combinando voto nominal, no candidato, na legenda, utilizando um quociente eleitoral calculado não pelo partido, mas pela coligação, a porcentagem dos votos recebidos pela coligação determina o número de cadeiras daquela coligação no parlamento. É neste universo que um Enéas leva junto a si diversos outros parlamentares sem representatividade, apenas para citar o exemplo maior.

f) Um dos pontos mais polêmicos, o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais apesar de ser bandeira difícil de se defender em face do descrédito na política representativa, que se baseia no argumento de que “não há que se dar dinheiro público a esses políticos safados”. Em outro olhar, a desonestidade dos políticos não é causa da corrupção mas o efeito de um sistema que favorece a promiscuidade entre o financiador e o representante popular. O aspecto central é que financiamento privado custa muito mais caro aos cofres do país, estimula a corrupção. Um político financiado por instituições de ensino privado dificilmente lutará por uma educação 100% pública - a não ser que queira perder seus financiadores nas próximas eleições.

Também publicado no Blog da Dilma e no Blog Nossa Natal

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Projeto da morte na chapada do Apodi



Cerca de quinhentas famílias de agricultores que desenvolvem um revolucionário método de produção agroecológica no sertão nordestino serão expulsas de suas terras para a implantação de um sistema de agronegócio...
que beneficiará cinco grandes empresas e muito provavelmente contaminará toda a região conhecida como Chapada do Apodi/RN/CE com agrotóxicos.

A Chapada do Apodi é uma formação montanhosa brasileira localizada na divisa entre os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, funciona como divisor de águas entre as bacias hidrográficas dos rios Apodi e Jaguaribe e a sua produção agrícola concentra-se nas culturas de mel, banana, milho , melão, mamão, goiaba, ata (fruta-do-conde), melancia, pimentão, graviola, algodão herbáceo, feijão vigna, sorgo e capim de corte.
O projeto iniciado em 8 de março de 2005, ainda na gestão do Presidente Lula, foi batizado como assentamento milagres, e é um projeto modelo utópico de reforma agrária, o segundo maior produtor de mel do Brasil, exportando mais de 40 toneladas de Mel para a Europa e para os Estados Unidos. Segundo João Pedro Stédile, a Presidenta Dilma Rousseff tem muito boa vontade para a reforma agrária, mas está extremamente mal assessorada neste particular.



O Presidente da CUT (Central única dos Trabalhadores ) no Rio Grande do Norte, Zé Rodrigues,  ressalta que as famílias trabalham em sistema de cooperativismo, em lotes de oito hectares, e serão desapropriadas de suas terras sem qualquer garantia de indenização ou de realocação.

O líder popular esclarece que suas afirmações são embasadas em estudos da UFC, UFRN, UFERSA e UERN, e que o projeto de agronegócio em tela utilizará de pulverização aérea, método que comprometerá a produção de mel e trará danos a toda a sociedade. Segundo estudos da UFC 45% dos venenos utilizados no agronegócio vão para o subsolo contaminando os lençóis freáticos, 19% dos venenos ficam nas, e o restante evapora contaminando a população com as chuvas. Já é comprovado que os venenos utilizados são repassados às crianças através do aleitamento materno.

Zé Rodrigues ainda explica que toda a situação já foi exposta a Gilberto Carvalho e para a Presidenta Dilma, e que o povo aguarda uma nova reunião para tratar da questão. Um grande ato público está marcado para o dia 10 de dezembro, e visa sensibilizar a sociedade já que os grande conglomerados de comunicação fingem que estes problemas não existem.
Na capital do Rio Grande do Norte, o coletivo da UFRN “Até que tudo cesse, nós não cessaremos” organiza uma caravana para somar forças ao ato público do dia 10. O líder estudantil Adler Barros é assertivo: "Os movimentos sociais da cidade estão solidários aos movimentos sociais do campo e não vão abandonar os companheiros nesta luta. A mídia não divulga, não há nenhuma repercussão". Ele ressalta que segundo o projeto os recursos hidricos vão ser divididos em três partes, uma para a agricultura familiar, outra para abastecer os municípios vizinhos, e uma terceira parte para o agronegócio, aumentando a escassez de água em região de clima semi-árido.

O coletivo ambientalista Nivaldo Calixto, do IFRN, está organizando debates sobre o crime lesa humanidade a ser perpetrado. Para Matheus Graça, membro do Coletivo, o projeto é inviável tecnicamente, pois o modelo de irrigação utiliza bombeamento em vez da gravidade, o que encarece o projeto, ele afirma que é um projeto mal estudado e com planejamento não compartilhado com a população. “É uma violação, pois os agricultores que ocupam as terras o fazem com natureza num projeto de reforma agrária, produzem em sistema de agricultura familiar e orgânica. Estão destruindo um modelo de agricultura para todo o Brasil, estão destruindo um símbolo da agricultura social e da reforma agrária".

Segundo o professor universitário e militante social Daniel Valença, O DNOCS é o órgão promotor das obras, e está dirigindo o projeto de maneira altamente equivocada, já que as famílias não foram sequer convocadas para audiência pública. Ele ressalta que é um projeto da época da ditadura militar e que o Deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) parece ser um dos grandes defensores do projeto, já que segundo o depuado apenas meia dúzia de pessoas se oporiam ao projeto.

Neste dia 1 de dezembro, diversas placas de publicidade do projetos foram postas abaixo e queimadas pelos agricultores, indignados com a situação de ter tudo o que construíram em sua vida perdido. Uma grande tensão social se instala na região, e a população clama para que aqueles que assessoram de modo incoerente a nossa Presidenta se sensibilizem, e que a situação real chegue aos ouvidos da mandatária.




Procurados pelo Blog da Dilma, a assessoria do DNOCS afirmou que todos os estudos técnicos foram realizados, e que o projeto não causará danos à população, mas progresso, desenvolvimento e geração de empregos e de renda.

originalmente publicado no Blog da Dilma

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Direito à cidade

originalmente publicado no Diário de Natal, em 25/09/20012



Tem-se no Brasil uma Constituição de rara beleza, que assegura direitos de modo ímpar entre todas as outras. A grande dificuldade, em real e concreto, é a fazer valer no mundo real, principalmente para as pessoas que mais necessitam dela. Um dos seus pontos altos é sobre o direito à propriedade, que trata do uso, gozo e disponibilidade dos bens num instrumento pétreo, que não pode ser modificado sequer por emenda constitucional: a função social da propriedade.

Neste particular, a coletividade é posta como protagonista, estando acima do individuo. Um exemplo claro é do fazendeiro em área de seca, obrigado a socializar um açude para garantir o acesso à água. A noção de propriedade, portanto, não deve e nem pode ser vista apenas como um direito, pois traz consigo deveres e responsabilidades.

Há dez anos um novo debate surge no horizonte, sobre a função social da cidade. Estando num país que em 40 anos a população deixou quase por completo de serrural para ser urbana, a lei desafia o gestor de políticas públicas a saciar os muitos que em solidão gritam pelo básico, nas periferias desassistidas, em cinturões de pobreza e miséria, sem a mínima habitalidade e em condições sub-humanas, sem dignidade.

A função social da cidade mostra-se esquecida, e seus instrumentos acabam utilizados ao arrepio de sua própria natureza. Temos em breve um novo ajuste sobre o plano diretor de Natal, item obrigatório para todas as cidades com mais de 20 mil habitantes. Ao rememorar a última revisão, são emblemas os grandes escândalos de corrupção desnudados na chamada Operação Impacto.

Neste quadro, a busca por cidades sustentáveis, por direito à moradia, saneamento ambiental, transporte, não são menos importantes do que o direito ao trabalho e ao lazer. O esquecimento sobre as demandas dos excluídos nas favelas contrasta com os centros das cidades não menos olvidados, com a sua história material e imaterial tratada como um parente incomodo escondido num quarta escuro, longeda sala de visitas.

Na busca por democracia real, por democracia direta, o controle social tem um papel fundamental, e seus instrumentos, como os órgãos colegiados de política urbana, audiências, consultas públicas, conferências e referendos, mostram-se desprestigiados pelo desuso. O desafio de dar voz e vez encara inimigos ocultos, a especulação, a ganancia.

Em tempos de grandes obras e eventos, ecos de uma utopia são reais, são os gritos dos sem teto, dos sem lar, daqueles que perderão tudo. O direito à cidade não é apenas o direito de ter um teto, mas também o direito a não se abrir mão dele. Não se restringe ao direito de subsistir, mas alcança o direito de ter uma vida plena.

Entre todas, a maior violência é se guardar o conhecimento, se guardar o saber. E pouco se sabe, poucos comentam, muito pouco se diz sobre o direito à cidade. Aí mora um grande perigo, devemos todos ter claro que a idade em que as bibliotecas ficavam guardadas por chaves é conhecida como a era das trevas.

O direito à cidade, bebendoda fonte de Lafebvre, é o direito da obra humana. O direito que alcança as futuras gerações, que garante às crianças e velhos de amanhã até mesmo o direito de beber água, já que os mananciais de Natal seguem em constante ameaça pela falta de saneamento.

Nesta difícil arte de viver entre interesses, o caos visível do dia a dia e de todos demanda da sociedade um olhar atento sobre este tema importante, porém esquecido até em tempos de intenso debate político. O direito de ir e vir, o direito de saber, o direito à cidade, são todos partes de um direito, o direito de ser.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os candidatos passam, mas as promessas ficam


Quase trinta anos após o fim da ditadura militar e retorno das eleições, problemas antigos e aparentemente sem solução continuam a atormentar o dia a dia da população natalense, como melhorias na saúde, educação, moradia, trânsito e mobilidade urbana, que ainda não saíram da agenda dos candidatos.
Há exatos 27 anos, a eleição foi vencida por Garibaldi Alves Filho e seu vice Roberto Furtado. Melhorar a educação, a saúde, ouvir a população, acabar com o isolamento da zona norte da cidade, efetuar um planejamento urbano que abarcasse todas as zonas da cidade, prestar um serviço público universal para a população, foram as promessas, e são até hoje.

Nas áreas da saúde, a manutenção dos leitos cria uma superlotação enquanto a população cresce de modo constante. A educação pública não ultrapassa as barreiras da educação bancária, onde apenas se deposita o saber e o estudante aprende a repetir. Ocorre que a indignação das pessoas, no momento, se espelha naquelas que vão às ruas protestar contra o aumento das tarifas do transporte público.

Ao se debruçar sobre a questão do planejamento e da mobilidade urbana, vive-se um caos que tende certamente a ser cada dia maior. A falta de investimentos e de prioridade do poder público cria gargalos nas ruas e avenidas, um imenso prejuízo tanto para o empresário, que sofre com a logística, quanto para os trabalhadores, com dificuldades de ir e vir ao trabalho, de usufruir das possibilidades de lazer que a cidade oferece.

Engarrafamentos nas avenidas Salgado Filho, Bernardo Vieira, Thomaz Landim, Estrada da Redinha e Engenheiro Roberto Freire, fazem parte do dia a dia de todos os habitantes, e, diga-se de passagem, as ferramentas para contornar tal situação acabam como obra do descaso das diversas gestões municipais, que pouco ou nada fizeram para ampliar a mobilidade urbana.

É miragem, ainda, a inclusão de uma rede de metrô de superfície em Natal, mesmo esta obra estando inclusa no PAC 2. Trata-se de uma obra compartilhada entre os Governos do Estado e do Município que beneficiaria toda a região metropolitana, com revitalização, reforma, e adaptação do trecho da linha férrea Ribeira-Extremoz e implantação de veículos leves sobre trilhos (VLT).

O projeto da Via Expressa, que se propõe a desafogar o trânsito em várias avenidas, ligando a Zona Norte da cidade até a Zona Sul, abriga quatro viadutos, um túnel, um terminal de integração, uma estação de integração (CBTU), ciclovias, ciclo-faixas, para-ciclos e bicicletários. A primeira vista uma excelente obra, mas que se contradiz ao passo em que a população não foi devidamente consultada, que para ser realizada obriga a realização de desapropriações sem critérios claros, e que foca o transporte individual de passageiros.

Outro projeto, o Pró-Transporte, está completamente estagnado, apesar da urgência de construção de passarelas na avenida Thomaz Landim, estações de transferências, e das duplicações das avenidas das Fronteiras, Tocantinea e Rio Doce, além da construção de corredores de ônibus.

O maior problema, destarte, se encontra na carência que a população enfrenta em face do transporte que hoje existe – ela não vive de promessas. A pouca disponibilidade de linhas de transporte coletivo, a pouca abrangência de áreas e os reduzidos horários de atendimento, são reclamações diárias dos usuários do transporte público.

Em cidades com planejamento urbano desenvolvido, o cidadão prefere, por economia e conveniência, muitas vezes utilizar do transporte público, como em Londres ou Nova York. Sem necessário ir muito longe, em São Paulo existe o bilhete único, permitindo às pessoas economizar ao utilizar várias linhas de ônibus com um único bilhete e, hoje em dia já há a proposta do bilhete único mensal, permitindo ao passageiro que adquira tal benefício utilizar da rede pública de transportes sempre que necessário.

A triste realidade potiguar é que nos últimos 27 anos a sua voz é muito pouco ouvida por seus governantes. Apesar do sistema de transportes ser público, uma concessão do Estado para a iniciativa privada, aparenta que na verdade as grandes empresas mantém os governos como reféns, patrocinando as candidaturas que lhe são favoráveis, elevando as tarifas do serviço público sem necessitar sequer justificar a relação entre os custos e os lucros. Nesta tragédia, o que resta às pessoas é exigir aquilo que lhe é de direito, aquilo que é público. Resta saber se quem deve exigir acredita que pode obter aquilo que lhe pertence.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Educação digital

originalmente publicado no Diário de Natal, 29/08/2012

Cada vez mais a internet alcança espaços e transforma a nossa sociedade. As atividades bancárias, hoje informatizadas, ganharam agilidade e uma dinâmica que extinguiu o uso dos cheques. A informação ganhou uma dinâmica em que os meios de comunicação se fazem atentos às notícias comentadas nas redes e mídias sociais, certas vezes até apurando pautas colhidas a partir destes novos meios de comunicação. Mas a verdadeira transformação há de acontecer na educação. Nos idos da década de 1980, o visionário cientista Isaac Asimov previu uma revolução na educação com a popularização da cibernética, defendia que assim como a televisão, numa era passada item restrito a poucas famílias abastadas, os computadores viriam a ser artigos de uso pessoal, difundidos entre todas as camadas sociais.

Se hoje em dia não há universalidade de acesso à internet, é realidade no Brasil existir mais celulares que habitantes, segundo a ANATEL (Agencia Nacional de Telecomunicações). Com o desenvolvimento da tecnologia móvel e das redes 3G, a ampliação do acesso às redes e mídias sócias, a repercussão cada vez maior em todas as camadas sociais se aprofunda e é caminho sem volta. Com a popularização dos trablets e dos smart fones, a era da convergência na comunicação se firma com o compartilhamento de textos, fotos e vídeos em tempo real, de modo colaborativo. Neste particular, surge vozes que clamam por um controle sobre os dados e sobre as informações na WEB, forças que não abrem mão do controle ao acesso à informação. Justificam o controle pela violação de direitos autorais, pela necessidade de coibir atos ilícitos propagados pela grande teia.

Destarte, uma grande comunidade, que não obedece qualquer fronteira geográfica, defende que a liberdade de compartilhamento de informações é uma questão análoga a multiplicação dos peixes, ao milagre bíblico efetuado por Jesus. Afirma-se que sem custos reais pessoas carentes teriam acesso à cultura, informações, documentos educacionais, antes restritos apenas a poucos privilegiados. Igualmente se argumenta que fotógrafos, grupos artísticos, musicais, tem com a liberdade na rede um canal ímpar para alcançar admiradores e firmar um trabalho, antes algo impossível pelos gargalos das indústrias editoriais e musicais. 

O grande salto, entretanto, é a possibilidade de se destruir o mito de que estudar é ruim, que se deve concluir os cursos, parar de aprender, ser finalmente adulto - Como se a maior graça do viver não fosse o constante aprendizado. A convergência e a internet 2.0. colocam o construtivismo como aspecto central da invenção e da educação, com a colaboração entre docentes e discentes de modo que cultura e conhecimento se alicercem em múltiplas plataformas e grupos de pesquisa.

O livre acesso à informação pode quebrar a estrutura de educação bancária, onde se deposita a informação e se cobra a repetição. É possível que um amante do futebol se interesse pela curva que a bola faz após um chute, e venhaa procurar saber um pouco sobre física para explicar a trajetória da bola. Existe na grande rede desde cursos online gratuitos, até mesmo redes e mídias sociais específicas para a educação. Usar a internet de maneira apropriada é permitir que haja a educação em uma escala de um para um, pondo o estudante com acesso infinito ao seu objeto de interesse, com acesso a obras localizadas em museus a milhares de quilômetros de distância, tornando possível ao internauta ter a sua frente todo o conteúdo das maiores bibliotecas do mundo.

Por fim, o livre acesso às informações é o maior meio de emancipação social, é a possibilidade de uma pessoa humilde competir em igual condição com um aluno de uma boa escola privada. A democratização da internet, conjugada com a democratização das informações é uma revolução possível, que modificaria toda a sociedade, e sem derramar nenhuma gota de sangue. Resta a dúvida se quem é contra esta liberdade, esta revolução, não compreende os benefícios que ela traria não apenas aos outros,mas também para si, ou se há o desejo da manutenção da desigualdade social e da hierarquia. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

#BlogProg da Grande Natal 2012 - Visões criticas do cyber espaço - O lado obscuro das redes e mídias sociais



Visões criticas do cyber espaço - O lado obscuro das redes e mídias sociais foi o tema da mesa da manhã de sábado do #BlogProg da grande Natal 2012. Um tema rico que nasce do hacktivismo dos primórdios da BBS, movimentos no México, Seattle, Genova na década de 90, até as recentes primaveras e movimentos 'ocupare'.

Destarte, a mesa em verdade teve como foco o "outro lado da força", ou como governos, instituições, corporações poderosas utilizam da rede desde para lucrar, até mesmo para controlar as pessoas. Vale a pena Conferir:
#BlogProg da Grande Natal 2012 - Ion de Andrade from AD Vid on Vimeo.


Ion de Andrade, criador do Fala Rio Grande – www.falariogrande.com.br, Natal-RN

#BlogProg da Grande Natal 2012 - Antonino Condorelli from AD Vid on Vimeo.


Antonino Condorelli que é jornalista, professor, pesquisador, promotor cultural independente, membro fundador do Grupo de Estudos Transdisciplinares do Ciberespaço – Cibertrans e blogueiro – www.ocondorerrante.blogspot.com e www.dialogoscriativosnatal.blogspot.com.

#BlogProg da Grande Natal 2012 - Visões criticas do cyber espaço - Ana Cecília Aragão from AD Vid on Vimeo.

Pesquisadora da Comunicação e membra fundadora do Cibertrans, Natal-RN

#BlogProg da Grande Natal 2012 - Camila Loureiro from AD Vid on Vimeo.

Pesquisadora da Comunicação, Natal-RN

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